Flambar vem do francês flamber: levar à chama. Na cozinha, o fogo exige técnica, medida e propósito. Por alguns instantes, envolve o prato, realça aromas e desperta a atenção de quem está à mesa.
Fora da cozinha, porém, há labaredas que não transformam nem alimentam. A intolerância não conhece medida: quando recebe combustível, cresce e se espalha. Depois que a disputa termina, a divergência pode virar ruptura; a conversa, ofensa e afastamento.
A mesa nos oferece outra imagem. Pessoas diferentes podem se reunir, partilhar o alimento e a palavra. Não precisam pensar da mesma maneira para reconhecer umas nas outras alguém digno de sentar, falar e ser ouvido.
O Direito à Mesa nos lembra que a convivência se constrói com escuta, respeito e regras comuns. No Direito, na docência e nas relações cotidianas, o conflito pode ser enfrentado pela palavra, com espaço para argumentar, discordar e buscar caminhos compartilhados.
Divergir é legítimo.
Desumanizar, não.
Evitar a desumanização é responsabilidade de todos nós, inclusive minha. Essa responsabilidade começa quando, mesmo diante de uma opinião que nos contraria, preservamos a humanidade de quem a expressa.
Que a labareda encontre seu lugar na cozinha: para flambar um prato ou assar um churrasco que nos reúna. Que, à mesa, o fogo aqueça a conversa e preserve nossos laços.

