Minha vida de atleta teve como maior desafio a barreira. Quem corre com obstáculos sabe que o perigo não é a barreira que se vê, é a que vem depois. Você salta, aterrissa com a dignidade que o joelho permite, e lá está a próxima, impassível, com a pose de quem nunca perdeu uma discussão.

E havia as barreiras de fora da pista, essas sem numeração nem altura regulamentar: a lesão, a burocracia, a dúvida das cinco da manhã, o aplauso que some junto com o cronômetro. Para essas ninguém me deu planilha de treino. Aprendi no tombo, que é escola barata e de muita frequência.

Na pista, além das barreiras, havia outros desafios: vencer Eronildes Araújo, Chiamulera, Helião, Cleverson e Espigão. Cada um deles tornava a prova mais difícil — e, por isso mesmo, mais digna de ser disputada. Fora dela, pesavam o pouco incentivo ao esporte e o preconceito de alguns. Eram obstáculos sem faixa de chegada, mas que também exigiam fôlego, insistência e uma boa dose de teimosia.

O destino, esse enxadrista de humor duvidoso, achou graça e me trocou de arena: das pistas para os tribunais, dos tribunais para as mesas. Como especialista em Direito à Mesa, passei a defender o que se come, o que se divide e, sobretudo, o que se brinda. E o vinho me pegou pela mão. Não pelo rótulo, que a vaidade escreve, mas pela história, que o tempo assina.

Foi num fim de tarde, longe de qualquer raia, que dei de cara com ela: a parreira. Fileiras de galhos amarrados, cachos pendendo com a paciência de quem nunca ouviu falar em prazo. Parei diante dela como parava diante da barreira, o corpo ainda lembrando o impulso, pronto para saltar. Ela, serena, nem se mexeu. Parreira não salta, não recua, não pede licença. Ela espera. Foi ali que entendi a diferença. A barreira quer você inteiro num instante; a parreira, inteiro numa safra. Uma se vence com velocidade, a outra com vagar. Um atleta em recuperação, descobri, é só um cacho em fase de aprendizado: verde, azedo e convencido de que já está pronto.

Hoje, quando ergo a taça, não celebro o tempo que cortei na pista. Celebro o que o tempo, sem pressa nenhuma, fez comigo — e também aquilo que ajudamos a semear para quem veio depois.

A prova agora é outra. Alison dos Santos, o Piu, e Matheus Lima seguem pela pista, vencendo barreiras que ainda nem conhecemos. Que levem consigo, em cada passada, um pouco da coragem de quem correu antes; e que saibam: nossa geração talvez tenha sido parreira — raiz discreta, ramo estendido, sombra breve — para que os frutos deles amadurecessem ao sol.

A eles, minha admiração e meu brinde. Que saltem alto, corram longe e, depois da linha de chegada, também descubram a beleza de parar. Saúde, campeões: a pista é de vocês, mas a emoção também é nossa.