Como tantas crianças da minha geração, nos anos 1970 e 1980, eu queria ser jogador de futebol. Fiz testes em alguns clubes, mas nenhum deu certo. Para falar a verdade, eu nem sabia direito em que posição queria jogar.
Aos dez anos, experimentei de tudo um pouco: natação, karatê, vôlei. Tentei até o basquete, porque tinha talento. Mas uma consulta médica pelo Iamspe acabou interferindo no sonho: faltei justamente ao jogo que poderia me levar a treinar na equipe infantil de Presidente Prudente.
Minha mãe trabalhava para uma senhora que enxergava em mim um esportista. Um dia, começou a me levar nas caminhadas que fazia na pista de atletismo da Unesp, no velho Oeste paulista. Eu não acompanhava o passo dela. Enquanto ela caminhava, meus olhos ficaram presos a um colchão e a um sarrafo. Alguns atletas corriam, saltavam e venciam aquela barra no ar. Foi ali que conheci o atletismo. E ali, sem que eu soubesse, minha vida começou a mudar.
Antes, porém, preciso falar de João do Pulo. Eu o admirava desde menino e tive a alegria de conhecê-lo pessoalmente. Cheguei até ele por meio de Tadashi Kuriki, marido de Maria Helena, amiga da minha mãe. Naquele tempo, eu costumava acompanhar os dois em passeios. Era a “vela preta” do casal — expressão que, para mim, ainda guarda a graça e o carinho daqueles dias.
Tadashi era um homem íntegro, apaixonado pelo esporte e incentivador de atletas. Foi deputado constituinte paulista e participou dos trabalhos que levaram à Constituição do Estado de São Paulo, em 1989. Mas, na minha memória de menino, ele também é aquele homem que me aproximou de um ídolo e me acolheu nos caminhos da família.
E é aí que a história do esporte encontra a mesa.



A mãe de Maria Helena, Dona Clarinda, muitas vezes pedia que a filha e Tadashi me levassem com eles. Nos domingos, os passeios podiam terminar na casa dela, em volta de uma mesa farta. Naqueles almoços, reinava a alegria. Os pratos pareciam fazer mais do que alimentar: reuniam pessoas, aproximavam histórias e criavam um lugar onde todos cabiam.
Durante a semana, minha vida de atleta tinha disciplina rigorosa. Acordava e comia ovo cru — como talvez alguns se lembrem de ver no filme Os Filhos de Francisco. Por muito tempo, carreguei uvas-passas no bolso da calça, do short ou da bermuda. O nutricionista da equipe recomendava que as comesse de hora em hora para recuperar a energia do treino.
Mas, aos domingos, havia os almoços da Tia Clarinda. E neles eu era feliz.
Eu também era filho de cozinheira. Cresci vendo minha mãe preparar os pratos e aprendendo, mesmo sem perceber, que a cozinha é lugar de trabalho, cuidado e transmissão. A alimentação sempre esteve presente na minha vida: como disciplina do esporte, como saber aprendido em casa e como tradição partilhada à mesa.
A Constituição brasileira reconhece hoje a alimentação como direito social e protege o patrimônio cultural, incluindo formas de expressão e modos de criar, fazer e viver. Quando penso nos domingos da Tia Clarinda, essas palavras ganham rosto, cheiro e sabor. A mesa era parte da nossa história antes que eu encontrasse palavras para explicá-la.
Anos depois, ao escrever Direito à Mesa, percebi que não começava apenas em livros ou conceitos. Voltava também à cozinha da minha mãe, aos almoços de domingo e à mesa onde a comida aproximava pessoas. Talvez por isso eu saiba que a mesa do esporte é tão rica e, ao mesmo tempo, tão dolorosa: nela aprendi a disciplina e a renúncia; na mesa da família, encontrei alegria, afeto e pertencimento.
Este texto é dedicado à Tia Clarinda, ao Tio Zé e a Maria Helena Kuriki, que agora estão morando com nosso Pai Eterno nos banquetes celestiais.


