Da infância até os trinta anos, morei no interior paulista, em Presidente Prudente, cidade conhecida como Velho Oeste e cercada por fazendas e pelo movimento do agronegócio. Quando criança, antes de me tornar atleta, eu costumava visitar as fazendas do antigo patrão da minha mãe. Apesar de sempre ter ouvido falar do canto do garnizé e de seus encantos, nunca fui acordado por um galo.

Aos trinta anos, mudei-me para a capital paulista e me adaptei à correria do dia a dia. Em Sampa, a gente não desperta: levanta acelerado ao som do despertador do celular. Só que agora é diferente. Em plena Mooca, às cinco da manhã, sou despertado todos os dias pelo canto de um galo. Sim, você leu certo: já não preciso do despertador do celular. Um simples galo tomou o lugar dele — justo agora que não preciso acordar tão cedo.

Já me disseram que, com a idade, a gente adota o hábito de acordar com as galinhas. No meu caso, acordo com o galo dos vizinhos. Só falta ordenhar uma vaca, pegar um ovo no galinheiro, colher a fruta do suco no pomar e pôr um pão caseiro na mesa do café da manhã.

E, olha que maravilha: em vez de carro ou transporte público, eu poderia ir trabalhar a cavalo. Sonho ou pesadelo?

O despertar com o galo é real e divertido — pelo menos para mim. Minha vizinha do 13º andar, porém, não estava nada feliz com o garnizé, como me confidenciou no elevador.

Tudo isso me fez lembrar que o galo, Le Coq, é um símbolo tradicional da França e também está no nome de um prato clássico: o coq au vin, o galo ao vinho, associado à Borgonha, região onde morei quando estive na França. Aliás, nem em Dijon tive a oportunidade de ser acordado pelo canto de um galo.

Olha que curioso: nos últimos anos, tenho me dedicado ao Direito Gastronômico e agora sou despertado por um animal ligado à cultura francesa e à tradição de um prato da região da Borgonha.

O coq au vin nasceu como uma refeição camponesa, feita para aproveitar galos mais velhos, cuja carne, mais firme, pedia um cozimento longo. O vinho ajudava a amaciar a carne e dava origem a um prato nutritivo, que com o tempo conquistou lugar na gastronomia francesa.

Há também uma lenda saborosa sobre sua origem. Conta-se que um chefe gaulês teria enviado um galo a Júlio César como provocação. Em resposta, César teria devolvido o animal cozido em vinho. A história é atraente, mas permanece uma lenda: não há fonte antiga que confirme esse episódio. Ainda assim, ela combina com a trajetória de tantos pratos: receitas nascidas da necessidade e da criatividade, transformadas, com o passar do tempo, em símbolos de uma cultura.

Talvez seja também aí que o galo da Mooca me leve a pensar no que acontece à mesa. Um prato nunca é apenas o que chega ao prato: carrega território, trabalho, memória e afeto. Esse olhar atravessa os fundamentos que desenvolvo em Direito à Mesa: Fundamentos do Direito Gastronômico — e que, às vezes, começam a se revelar nas situações mais inesperadas, como um galo cantando na janela de um apartamento paulistano.

Enfim, já sei o prato que vou preparar no fim de semana para minha bela mãe. Diferentemente da vizinha do 13º andar, ela adora ser acordada pelo canto do galo, pois, segundo ela, ele a faz lembrar da infância.

E, se na próxima segunda-feira o galo parar de cantar na Mooca, logo depois do meu jantar de fim de semana, será mera coincidência.

Nota editorial

O episódio de Júlio César foi tratado como lenda, pois não há fonte antiga que o confirme.