O culto a Nossa Senhora Achiropita remonta ao ano 580 1, quando o capitão Maurício chegou por acaso a Rossano Cálabro, então uma pequena aldeia. Um monge local profetizou que ele se tornaria imperador do lugar e ali construiu um templo em honra a Nossa Senhora.

Dois anos depois, já imperador, Maurício cumpriu a profecia e mandou erguer o santuário, mas, um fato intrigante ocorreu: a imagem pintada em uma das paredes do tempo desaparecia todas as noites. E, por conta disso, um vigia foi colocado para observar o local.

Certa noite, uma mulher com uma criança nos braços pediu para entrar. O vigia, sem desconfiar, permitiu. Como ela demorava a sair, foi verificar e não a encontrou e, em seu lugar, viu a imagem de Nossa Senhora pintada na parede.

Espantado, o vigia saiu correndo e gritava: “Achiropita! Achiropita!, que quer dizer: “não pintada por mãos humanas”.

A partir de então, a devoção à Nossa Senhora Achiropita espalhou-se pela Itália, e, trazida pelos imigrantes calabreses de Rossano, chegou a São Paulo, onde é venerada até hoje.

1.1. Instalação dos imigrantes italianos no bairro Bexiga e a devoção a Nossa Senhora Achiropita

A tradicional festa de Nossa Senhora Achiropita teve início nos dias 13, 14 e 15 de agosto de 1908, após João Falcone, na rua Treze de Maio nº 100 2, ergueu um altar de madeira e colocou a imagem da santa, que foi trazida pelos primeiros imigrantes que se instalaram

Recomenda ler https://academiacristadeletras.org.br/publicacoes/artigos/festa-da-achiropita-em-sao- paulo-surgiu-de-uma-disputa-entre-moradores-do-bixiga-para-dar-nome-a-sua-igreja.html Consultado em 16.08.2026

Ver https://achiropita.org.br/como-tudo-comecou/ Consultado em 15.08.2026

no bairro do Bexiga, na capital paulista. A partir daquelas datas missas eram celebradas e após, iniciava-se a festa de Nossa Senhora Achiropita.

A festa tinha por finalidade angariar fundos para comprar um terreno onde seria construída uma capela. A capela em homenagem a santa foi construída no local onde hoje se encontra a igreja de Nossa Senhora Achiropita e, naquele tempo ela ficou pequena diante de tantos fiéis.

Diante da necessidade de construir uma igreja grande e definitiva, a comunidade decidiu manter a festa para angariar fundos. Naquela época, uma comissão foi formada e festa consistia da seguinte forma: uma procissão com a imagem de Nossa Senhora Achiropita e Nossa Senhora da Ripalta e no caminho, os fiéis penduravam fitas na mão das santas. As sacadas das casas eram enfeitadas com colchas e toalhas. Em seguida, a quermesse continha barracas com sorteios de prendas arrecadadas, leilões sobre as carroças, um pau de sebo e animada pela banda dos Bersaglieri, que veio da Itália. As famílias locais contribuíam com doações em dinheiro para realização da festa e construção da igreja.

Com a Segunda Guerra Mundial e em razão da perseguição de Getúlio Vargas aos italianos, a festa de Nossa Senhora Achiropita foi suspensa sem afetar as missas, novena e procissão. O retorno da festa ocorreu no início da década de 50.

O apogeu religioso da de Nossa Senhora Achiropita se deu entre as décadas de 50 e 60 e a festa era de responsabilidade das associações religiosas, como por exemplo: apostolado da oração, marianos, filhas de Maria, os vicentinos e vocações. As barracas eram sorteadas e foi nesse período que a festa começou servir comida, o sanduiche de pernil. As ruas eram decoradas com cordões de lâmpadas coloridas.

Dando um salto na história, em 1975, a festa de Nossa Senhora de Achiropita era feita no pátio que havia atrás da igreja, as famílias traziam pratos doces e salgados para vender na festa e as barracas eram diversas mesas espalhadas onde todos faziam de tudo.

A ida definitiva da festa para as ruas ocorreu em 1979 e, a autorização legal pela prefeitura ocorreu no ano seguinte (em 1980). Naquela época havia trezes barracas e com aproximadamente 200 voluntários.

A barraca da fogazza foi na novidade da festa ocorrida em 1980. O quitute supra começou sendo feito apenas com dois quilos de farinha como experiências e, no primeiro dia era

fita com os pastéis, todavia, no dia seguinte e em razão da sua grande procura, foi necessário aumentar a quantidade de produção da fogazza.

Outra novidade surgida em 1980, foi a Cantina Di Napoli, que foi montada no terreno ao lado da Igreja de Nossa Senhora Achiropita.

Em 1983, foi lançada a pedra fundamental das obras sociais da paróquia, o Centro Educacional Dom Orioni (CEDO), a festa já constava com 22 barracas e 350 voluntários e os preparativos ocorriam na garagem da província.

Em 1985 a cantina passa a ser montada no prédio das obras sociais e um palco definitivo foi feito com o conjunto tocando músicas típicas italianas, surge então a Cantina Madonna Achiropita. Ademais, um novo quitute passa ser vendido na festa: o provolone de dois metros e cerca de 100kg, que hodiernamente é um dos símbolos da festa.

1.2. A Lei 14.829/2024

A década de noventa foi marcada pela adoção de uma missa em homenagem aos imigrantes italianos, que chegaram no Brasil e se instalaram no Bexiga, além de terem sido responsáveis direitos pela devoção a Nossa Senhora Achiropita. Outrossim, a missa homenageava os descendentes dos primeiros italianos no referido bairro paulistano que continuaram com a tradição para a continuidade da tradição. Foi também na década de noventa que a festa despertou interesse de grandes patrocinadores, colaboradores e benfeitores.

Vale dizer que, a lei 14.970/2009 inseriu no calendário oficial do município de São Paulo, o mês de comemoração do Dia de Nossa Senhora Achiropita, a ser celebrado, anualmente no mês de agosto, no bairro do Bixiga, na rua onde fora instalada, em 1908, a capela – hoje igreja -, da santa.

Tramita na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo o projeto de lei nº 669/2026, para decertar a festa de Nossa Senhora Achiropita como Patrimônio Imaterial do Estado.

E, em 2024, o Presidente da República promulgou a Lei 14.829/2024 que reconhece a festa de Nossa Senhora Achiropita como Manifestação da Cultura Nacional.

Hodiernamente, a festa é visitada por mais de 200 mil pessoas vindas de todo o Brasil, possui 30 barracas e mais de mil e duzentos voluntários.

A festa propaga a devoção a Nossa Senhora Achiropita e, grande parte dos visitantes participam das missa, e das benções que acontecem de hora em hora. Toda a renda obtida na festa é revertida, integralmente, para a manutenção dos projetos sociais das obras sociais Nossa Senhora Achiropita.

Vale acrescentar, que a festa de Nossa Senhora Achiropita brasileira é mais conhecida do que quaisquer outras celebrações equivalente dedicada a ela na Itália.

2. Veredas para decretação de Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil A Festa de Nossa Senhora Achiropita, inegavelmente, constitui um dos mais expressivos marcos a herança cultural italiana no Estado de São Paulo, especialmente da comunidade de descendentes calabreses. Sua relevância levou a Assembleia Legislativa do referido Estado a criar um projeto de lei (PLE nº 669/2026) para decretá-la como Patrimônio Cultural Imaterial do Estado, justamente, por representar a identidade, a memória e a atuação dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira. Com cerca de 200 mil participantes por edição, o evento atrai fiéis e visitantes do Brasil e do exterior. A celebração reúne novenas, missas e procissões a manifestação gastronômicas, musicais e artísticas, preservando e difundindo as tradições italianas. Por essa razão, consolidou-se como uma das maiores expressões da cultura italiana no Brasil e uma das festas religiosas mais emblemáticas da capital paulista. Ademais, a importância da Festa de Nossa Senhora Achiropita, legalmente é reconhecida como Manifestação Cultural Nacional. Além da dimensão cultural e religiosa, a festa exerce relevante função social por mobilizar mais de 1.200 voluntários e destina integralmente sua renda às obras assistenciais da paroquia, que atendem diariamente mais de 1.100 pessoas em situação de vulnerabilidade, entre idosos, crianças, jovens e necessitados. Ademais, por intermédio das Obras Sociais Achiropita, a paróquia mantém o Centro de Atendimento Jurídico Dom Orione – CAJ -, que oferece suporte e orientação legal gratuita para pessoas de baixa renda na região central da capital paulista; projeto esse que também recebe parte da renda da festa supracitada. A Festa de Nossa Senhora Achiropita também fomenta o turismo local, a integração entre gerações, a devoção mariana e o desenvolvimento sustentável da comunidade do Bixiga. E, por essa razão, se defende aqui que a Festa de Nossa Senhora Achiropita possui dimensão de Patrimônio Cultural Imaterial não só do Estado de São Paulo mas sim da UNESCO.

Essa iniciativa encontra fundamento na concepção que é defendida no livro “Direito à Mesa: fundamentos do Direito Gastronômico”, segundo a qual a gastronomia ultrapassa a dimensão alimentar e integra o patrimônio cultural, a memória coletiva e a identidade dos povos. Alinha-se, igualmente, à missão do Instituto Transnacional de Direito à Mesa, voltada à pesquisa, à valorização e à proteção jurídica das manifestações culturais relacionadas à alimentação e à gastronomia. Conclusão Diante de sua relevância histórica, religiosa, gastronômica e social, a Festa de Nossa Senhora Achiropita reúne os atributos necessários para que o Governo Brasileiro apresente à UNESCO sua candidatura à Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Mais do que uma celebração religiosa, a festa constitui patrimônio vivo, afinal, preserva saberes culinários; práticas comunitárias; expressões artísticas, vínculos de solidariedade e a memória da imigração italiana, transmitindo-os entre gerações e reafirmando a diversidade cultural brasileira. O reconhecimento internacional da Festa de Nossa Senhora Achiropita não representaria apenas uma homenagem à comunidade calabresa e ao bairro do Bixiga, mas o compromisso do Brasil com a salvaguarda de uma tradição que articula fé, gastronomia, solidariedade e identidade coletiva. O livro e o Instituto podem, nesse percurso, oferecer suporte acadêmico, jurídico e institucional à elaboração do projeto a ser encaminhado pelo Estado brasileiro, contribuindo para demonstrar que a festa possui valor não apenas para São Paulo, mas para patrimônio cultural de toda a humanidade. A candidatura deverá buscar, tecnicamente, sua inscrição na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO.